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Descarte de pintinhos machos em incubatórios reacende debate sobre bem-estar animal na produção de ovos

Investigação da organização Mercy For Animals registrou o descarte de cerca de 35 mil aves recém-nascidas em um único dia em um incubatório do Sul do país; setor discute custo da tecnologia que evita a prática, e dois projetos de lei tramitam na Câmara.

Uma investigação da organização de defesa animal Mercy For Animals (MFA) trouxe de volta ao debate público uma prática rotineira da indústria de ovos: o descarte de pintinhos machos logo após o nascimento. A entidade registrou o descarte de cerca de 35 mil aves em um único dia, em um grande incubatório da Região Sul do Brasil. Segundo a organização, os animais são triturados menos de 24 horas depois de nascer. O nome da empresa não foi divulgado, porque a prática é comum no setor.

O caso foi publicado pela Agência Brasil nesta terça-feira (8) e reabriu a discussão sobre bem-estar animal, custos, impactos operacionais e alternativas tecnológicas na avicultura.

Por que os machos são descartados

Na cadeia de produção de ovos, o descarte acontece de forma sistemática porque os pintinhos machos não botam ovos e, segundo a própria cadeia produtiva, não apresentam características genéticas viáveis para o corte. Logo após o nascimento, eles são separados das fêmeas.

A organização também registrou o descarte de fêmeas, em menor escala, motivado por anomalias, deformidades, nascimentos prematuros ou excesso de produção em relação à demanda do mercado.

De acordo com Luiza Schneider, vice-presidente de Investigações da MFA, o objetivo do trabalho não era apurar uma denúncia específica, mas documentar uma prática representativa de quase toda a indústria. Ela afirma que os pintinhos recém-nascidos têm o sistema nervoso completamente formado e plena capacidade de senciência, o que inclui sentir medo e dor física.

A alternativa e o preço dela

A tecnologia apontada como saída é a sexagem in ovo, que identifica o sexo da ave ainda durante a incubação. Com isso, os ovos são descartados antes do nascimento. No Brasil, a primeira máquina desse tipo foi instalada no ano passado em um incubatório na cidade de Nova Granada, no interior de São Paulo.

O obstáculo é o custo. Pelo método convencional, o descarte após o nascimento tem custo estimado em R$ 7 por ave. Dados da organização Innovate Animal Ag indicam que a sexagem acrescenta entre R$ 5 e R$ 10 por ave. A entidade argumenta que, como uma poedeira produz cerca de 350 ovos ao longo da vida produtiva, o valor adicional representaria poucos centavos por dúzia para o consumidor final.

Alemanha, França, Áustria e Itália já aprovaram leis que proíbem a trituração de pintinhos. Noruega e Suíça eliminaram a prática por exigência do próprio mercado, sem legislação específica. Em entrevista à Agência Brasil, Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da MFA, avaliou que a experiência europeia comprova a viabilidade da transição.

O que diz a lei brasileira

A Constituição proíbe práticas que submetam animais à crueldade, sem distinção entre espécies, mas não existe no país uma lei específica sobre o tema.

Dois projetos tramitam no Congresso Nacional. O PL 783/2024, da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), já passou pela Comissão de Meio Ambiente e pela Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, onde recebeu parecer contrário por questões econômicas, e deve seguir para o plenário. O PL 3034/2026, apresentado em junho pela deputada Heloísa Helena (Rede-RJ), está no início da tramitação.

A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa o setor de aves e ovos, foi procurada e, até a publicação da reportagem original, não havia se manifestado sobre a prática.


FONTE:
CNN Brasil — CNN Agro, publicada em 9 de setembro de 2026, com base em reportagem da Agência Brasil

Redação

Agro101

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