Com risco de estiagem mais forte neste ano, técnicos recomendam planejamento alimentar e uso de forragem conservada para o produtor manter a produção diária mesmo com o pasto seco.
O período de seca é sempre um teste para quem vive da produção de leite no Maranhão. Sem chuva, o pasto perde folha, perde valor nutritivo e a vaca “segura” o leite — é natural, mas dá para amenizar bastante com planejamento.
A Federação dos Municípios do Estado do Maranhão (Famem) alertou, em junho, que a previsão de um El Niño de intensidade moderada a forte acende um sinal de atenção para o clima do estado neste ano. Segundo a entidade, as regiões Centro-Sul, Sul e Sudoeste maranhense estão entre as mais suscetíveis à redução das chuvas, o que pode prejudicar tanto a agricultura familiar quanto os grandes produtores. Mas o alerta serve para todo produtor do estado: a estiagem, mesmo sazonal, é um período que exige atenção redobrada com o rebanho leiteiro em qualquer região, inclusive no Médio Mearim.
Guardar comida para a vaca antes da seca chegar
Segundo pesquisas da Embrapa voltadas ao semiárido nordestino, o principal segredo para não perder produção na seca é começar a se preparar ainda no período das águas — não esperar o pasto secar para agir.
Entre as práticas recomendadas pela Embrapa está o uso de forragens conservadas, como a silagem de milho, sorgo ou capim-elefante, feita justamente na época de fartura para ser usada quando o pasto estiver fraco. A silagem de capim-elefante, por exemplo, é apontada pela pesquisa como um recurso valioso para bovinos em regiões de menor disponibilidade de água, por permitir guardar volume de comida de boa qualidade por bastante tempo.
Outra alternativa bastante usada no Nordeste, principalmente em Pernambuco e Alagoas, é a palma forrageira — uma planta resistente à seca, rica em energia, que segundo a Embrapa se tornou um componente fundamental para a sustentabilidade de importantes bacias leiteiras nordestinas. No Maranhão, onde o clima é mais de transição entre Cerrado e Amazônia do que semiárido clássico, essa prática ainda não é tão difundida, mas capineiras de capim-elefante ou capiaçu e a produção de silagem são caminhos mais próximos da realidade local.
Planejamento técnico faz diferença, mesmo sem investimento em mais terra
Um exemplo recente mostra que assistência técnica bem aplicada pode aumentar a produção sem precisar desmatar ou abrir novas áreas de pasto. Segundo o Senar Maranhão, produtores acompanhados pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) em três municípios do sul do estado — São Pedro da Água Branca, Vila Nova dos Martírios e Cidelândia — já ultrapassam 3,8 milhões de litros de leite por ano, com um rebanho de mais de 1.500 vacas em lactação.
Segundo o coordenador regional da ATeG no Oeste Sul do Senar, Egon Bastos, o ganho vem do planejamento estratégico aplicado dentro da porteira, com o técnico levando a tecnologia direto para o produtor. Já o gerente da ATeG no Maranhão, Epitácio Rocha, informou que quase 5 mil das mais de 10 mil propriedades atendidas pelo Senar no estado são de bovinocultura de leite e corte, todas recebendo visita contínua de técnicos.
O caminho, segundo o Senar, passa por três medições simples que qualquer produtor pode acompanhar na propriedade: quantos litros a vaca dá por dia, se o pasto está entregando energia o ano todo e qual o custo de cada litro produzido. A partir desses números, fica mais fácil enxergar onde está o gargalo — e ajustar antes que o prejuízo apareça.
Água e sombra também entram na conta
Além da alimentação, a Famem reforça que garantir o acesso à água é uma das prioridades diante de um possível período de estiagem mais longo. Instrumentos como o Seguro Safra e, em casos mais graves, a operação carro-pipa podem ser necessários para atender as comunidades mais vulneráveis.
Para o produtor de leite, isso também vale dentro da porteira: manter os bebedouros limpos e funcionando e garantir sombra para o gado ajudam a reduzir o estresse térmico do animal — fator que também interfere diretamente na quantidade de leite produzida por dia.
Crédito e renegociação de dívidas
Outro ponto de atenção, segundo especialistas ouvidos pela Famem, é o acesso ao crédito rural e à renegociação de dívidas para os produtores durante períodos de seca mais severa, além da ampliação dos programas de apoio ao setor, especialmente voltados para os pequenos agricultores.
FONTE: Federação dos Municípios do Estado do Maranhão (Famem); Embrapa; Senar Maranhão/Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)
