O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos vai dar uma “identidade” para cada cabeça de gado do país. Em 2026, a etapa é de ajuste dos sistemas estaduais. No Maranhão, a AGED já foi conhecer a experiência do Pará, e o tema foi debatido na Expoema, em São Luís.
Cada boi, vaca ou búfalo do Brasil vai ganhar um número só dele, válido em todo o país. Com o lançamento do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), cada animal passa a ter um código de identificação único, válido em todo o território nacional. O plano foi lançado oficialmente em 17 de dezembro de 2024 e a conta vai até 2032.
Hoje, boa parte do controle sanitário é feita por propriedade e por lote de animais, com o registro do rebanho e documentos como a Guia de Trânsito Animal (GTA). Com o novo modelo, cada animal passa a ter uma identificação própria ligada às informações de movimentação, permitindo saber por quais propriedades ele passou. Se aparecer uma doença, a defesa agropecuária localiza os animais ligados ao foco e as fazendas por onde circularam, sem precisar tomar medidas gerais sobre regiões ou rebanhos inteiros.
Fique tranquilo: não é para brincar o rebanho todo amanhã. Em 2026, o programa está na segunda etapa, voltada principalmente à adequação dos sistemas de informação dos Estados e à integração das bases estaduais com a estrutura nacional. Os Estados têm até 31 de dezembro de 2026 para integrar seus sistemas à Base Central de Dados. Nesse período de transição, a identificação individual é voluntária e a movimentação de animais sem identificação continua permitida.
Depois disso, o aperto vem por partes. Entre 2027 e 2029 começa a identificação dos animais que passarem por manejo sanitário — como a vacinação contra brucelose — e dos que entrarem em protocolos privados. Entre 2030 e 2032, a exigência alcança todos os animais que se movimentarem em território nacional, antes da primeira movimentação. A partir de 1º de janeiro de 2033, fica proibido movimentar bovinos e búfalos não identificados, e Estados que concluírem as etapas antes podem antecipar a cobrança.
Não é marcação a fogo nem chip escondido. O plano prevê quatro opções oficiais: brinco auricular eletrônico tipo bandeira no padrão PNIB; botton auricular eletrônico no padrão; ou a combinação de brinco tipo bandeira em uma orelha com botton, desde que pelo menos um dos dispositivos seja eletrônico. Os dispositivos seguem padrão internacional, com numeração única e irrepetível de 15 dígitos e cor amarela, para facilitar a leitura no campo.
Maranhão foi buscar exemplo no Pará
Em 26 de maio de 2026, técnicos maranhenses foram ver de perto como funciona na prática. A Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará) recebeu comitiva da Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Maranhão (AGED) para apresentar o Sistema de Rastreabilidade Bovídea Individual do Pará (SRBIPA), que acompanha o ciclo de vida dos animais. O presidente da AGED, Wellington Reis, participou do encontro. Também estiveram na reunião o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Maranhão (CRMV-MA) e a Associação de Criadores do Estado do Maranhão (ASCEM/MA), representada pelo presidente Ricardo Ataíde. Para o representante do CRMV-MA, Roberto Carlos de Arruda, “Temos até 2032 para concluir esse processo, mas é fundamental iniciar desde já”.
O assunto chegou a São Luís em setembro. Na Exposição Agropecuária do Maranhão (Expoema), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) participou de painel sobre os benefícios da rastreabilidade para o produtor rural, representada pelo coordenador de Produção Animal, João Paulo Franco. Ele lembrou que o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, que a China compra quase metade do que o país exporta e que Japão e Coreia do Sul voltaram à mesa de negociação depois do reconhecimento do Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação, em 2025. Para esses compradores, segundo ele, rastrear a origem “deixou de ser um diferencial e passou a ser exigência”.
Há também o lado do custo. Brincos eletrônicos, leitores e softwares representam uma despesa que recai sobre o produtor, sem garantia de pagamento adicional pela carne rastreada. Por outro lado, analistas alertam que a dificuldade de comprovar origem pode gerar restrições de mercado e perda de valor, com reflexo até na arroba paga a quem não vende direto para o exterior.
Quem cria gado no Médio Mearim e no restante do Nordeste ainda tem tempo, mas o relógio já está correndo. O passo mais barato começa agora e não custa nada: manter o cadastro da propriedade e do rebanho em dia na AGED, declarar direito nascimento, morte e entrada de animais, guardar as GTAs e a nota da vacina. Quando a identificação individual chegar ao seu lote, quem já tem o cadastro organizado só vai precisar colocar o brinco — quem está com a papelada atrasada vai ter que correr atrás de duas coisas ao mesmo tempo. Para quem vende bezerro para fora do estado, entrar no sistema cedo pode virar carta na mão na hora da negociação.
O recado é simples: rastreabilidade não é moda nem só coisa de fazenda grande. É a nova regra de entrada do gado no mercado. Quem começar a se organizar agora chega em 2032 sem sufoco.
FONTES:
Ministério da Agricultura e Pecuária (Plano Estratégico PNIB 2025–2032); CNA — Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil; Adepará; CRMV-MA; Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável; SouAgro; Ponta Agro; Minerva Foods (MyMinerva); Insper Agro Global.
