Em agosto, a região viveu dois momentos opostos: a visita da ministra do Desenvolvimento Agrário a Lago do Junco, valorizando o trabalho das quebradeiras, e a denúncia de derrubada de palmeiras em Lago Verde. Editais do Fundo Babaçu seguem abertos até 13 de setembro.
A região central do Maranhão, especialmente a área do Médio Mearim, com destaque para o município de Lago do Junco —, segue sendo o berço histórico da organização e da luta das quebradeiras de coco babaçu, e voltou a ganhar destaque nas últimas semanas com dois episódios que mostram os dois lados dessa realidade: o reconhecimento institucional e as ameaças que o babaçual ainda enfrenta.
Visita ministerial a Lago do Junco
No dia 25 de agosto, a ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fernanda Machiaveli, esteve na Comunidade Ludovico, em Lago do Junco, em uma agenda institucional voltada à valorização das comunidades tradicionais e ao reconhecimento do trabalho das mulheres quebradeiras de coco babaçu. A programação incluiu uma caminhada e colheita de coco babaçu com as trabalhadoras locais, visita ao depósito e à cantina da comunidade, além de uma visita à fábrica de sabão de sabonetes de coco babaçu mantida pelas próprias quebradeiras. A agenda foi encerrada com um encontro reunindo quebradeiras de coco do Maranhão e do Piauí.
Denúncia de derrubada de palmeiras em Lago Verde
Em contraste, no dia 12 de agosto, quebradeiras de coco e moradores do povoado Marmorana, no município de Lago Verde, denunciaram a derrubada de centenas de palmeiras de babaçu na área conhecida como Fazenda Sete Voltas. A Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), articulação formada por 20 organizações da sociedade civil que atua em diversas regiões do estado, manifestou solidariedade às quebradeiras e repudiou qualquer tentativa de desqualificar ou intimidar a mobilização das mulheres, reforçando que a mobilização teve como único objetivo proteger as palmeiras — fonte de trabalho, renda, alimento e dignidade para famílias que dependem desse patrimônio natural.
O reconhecimento nacional do ofício
O episódio de Lago Verde ocorreu poucos meses depois de um marco importante para a categoria: em junho deste ano, a Lei Federal nº 15.431/2026, sancionada pelo presidente, reconheceu oficialmente o ofício das quebradeiras de coco babaçu como manifestação da cultura nacional nos estados do Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins. A norma abrange a coleta, a quebra e o beneficiamento do coco da palmeira babaçu (Attalea speciosa), nativa das regiões Norte, Nordeste e do Cerrado.
Como destacou o autor do projeto, deputado federal Ricardo Ayres, praticamente tudo da palmeira pode ser aproveitado: da palha se fazem cestos, das folhas o teto das casas, da casca o carvão, do caule o adubo, e das amêndoas se produzem óleo, sabão e leite de coco, além de uma farinha nutritiva extraída do mesocarpo.
Origem da luta no Médio Mearim
Foi justamente na região do Médio Mearim maranhense — nas comunidades Centrinho do Acrízio, Ludovico e São Manoel, no município de Lago do Junco — que a mobilização das quebradeiras ganhou força histórica, culminando na aprovação, em 1997, da Lei do Babaçu Livre no município, que garante às trabalhadoras o direito de livre acesso e uso comum dos babaçuais, inclusive em propriedades privadas, e impõe restrições à derrubada das palmeiras. Leis municipais semelhantes já estão em vigor em diversos municípios maranhenses.
Serviços e prazos em aberto
Para as cooperativas e associações de quebradeiras que buscam apoio financeiro, o Fundo Babaçu, vinculado ao Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), prorrogou o prazo de envio de propostas para os 11º e 12º Editais, que agora segue até 13 de setembro de 2026. Já a Defensoria Pública do Estado do Maranhão mantém o projeto “Defensorias nos Babaçuais”, com mutirões de atendimento jurídico, socioambiental e de cidadania nos territórios tradicionais, incluindo apoio para inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR), inclusão em programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e no Projeto Floresta + Amazônia, além de orientação sobre benefícios previdenciários e assistenciais do INSS.
O calendário da categoria também tem uma data à frente: 24 de setembro marca o Dia Estadual da Quebradeira de Coco Babaçu no Maranhão.
