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Pesquisadores brasileiros identificam linhagens de soja mais tolerantes a percevejos

Programa de melhoramento genético conduzido por universidades paulistas aponta caminho para reduzir o uso de inseticidas no controle da praga, que pode comprometer até 30% das lavouras de grãos.

 

Um grupo de cientistas brasileiros conseguiu identificar, por meio de um programa de melhoramento genético, quatro linhagens de sementes de soja com maior tolerância à infestação de percevejos. A pesquisa teve apoio da Fapesp e foi publicada na revista Pest Management Science, com participação de pesquisadores da Unesp (campus de Botucatu), da Esalq-USP e da UFSCar.

O trabalho analisou duas linhagens parentais — uma tolerante e outra suscetível aos percevejos — e outras 12 linhagens recombinantes, geradas a partir do cruzamento entre elas, que apresentaram diferentes graus de resistência à praga.

Dois ambientes de cultivo testados

Os experimentos foram conduzidos em duas regiões produtoras de soja, sob condições de manejo com e sem uso de inseticidas. Um dos testes ocorreu na Fazenda Lageado, da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, em Botucatu. O outro foi realizado na Estação Experimental do Departamento de Genética e Melhoramento de Plantas da Esalq-USP, em Anhumas, distrito de Piracicaba.

Segundo Larissa Chamma, coautora do estudo e doutoranda do Departamento de Produção Agrícola da FCA-Unesp, a escolha dos dois locais buscou reproduzir parte da diversidade climática do cultivo de soja no país: Botucatu, com altitude mais elevada e clima ameno, e Anhumas, com altitude menor e temperaturas mais altas.

De acordo com a pesquisadora, ainda há poucos estudos sobre como a genética da planta influencia a qualidade das sementes sob ataque de pragas, considerando diferentes condições de clima e solo — mesmo sendo a tolerância natural um elemento importante do manejo integrado.

O biólogo Rômulo Pedro Macêdo Lima, também coautor, explica que a pesquisa começou com foco no melhoramento genético, mas passou a incorporar também a questão do manejo, o que foi decisivo para a publicação do artigo. Segundo ele, a pergunta central deixou de ser qual linhagem é a melhor e passou a ser qual delas é mais estável em diferentes condições reais de cultivo.

O professor Edvaldo Aparecido Amaral da Silva, da FCA-Unesp e orientador de Chamma, destaca que a seleção genética não substitui o manejo integrado de pragas. Segundo ele, essa estratégia não elimina totalmente a necessidade de inseticidas químicos, mas pode reduzir custos e problemas ambientais para o produtor. O pesquisador aponta ainda que os percevejos podem provocar perdas de até 30% nas lavouras de grãos, considerando todas as culturas — não apenas a soja.

Como foi montado o experimento

Antes da semeadura, as duas áreas receberam calagem e adubação mineral conforme análise do solo, além de controle de plantas daninhas com herbicida e aplicação de fungicida quando necessário. As sementes destinadas ao tratamento químico receberam fungicida, inseticida e inoculantes, seguindo as recomendações dos fabricantes.

A aplicação de inseticida seguiu o monitoramento semanal de pragas, sendo realizada sempre que o método de “batida com pano” detectasse ao menos um percevejo por metro quadrado — parâmetro usado como referência em lavouras comerciais. Segundo Chamma, tanto Anhumas quanto Botucatu registraram populações de percevejos acima desse limite: um pico de cinco percevejos por metro quadrado em Anhumas e cerca de três em Botucatu.

Foram identificadas as espécies Nezara viridula, Piezodorus guildinii, Diceraeus melacanthus e Euschistus heros em ambas as regiões.

Nas parcelas com aplicação de inseticida, foram utilizados os compostos tiametoxam + lambda-cialotrina, clorantraniliprole + bifentrina, imidaclopride + beta-ciflutrina, deltametrina e imidaclopride + bifentrina. Já nas parcelas sem inseticida, apenas o preparo do solo e o controle com herbicida e fungicida foram mantidos.

De acordo com Lima, os dois ambientes foram tratados como se fossem quatro cenários distintos, já que era preciso considerar tanto a variação climática quanto a presença ou ausência de inseticida.

Ao todo, foram avaliadas oito características fisiológicas das sementes ligadas à germinação, ao vigor e à longevidade, com o objetivo de entender como a planta responde à exposição aos percevejos. Segundo Lima, o fator genético mostrou forte influência sobre a longevidade das sementes sob diferentes níveis de infestação, enquanto os efeitos ambientais foram predominantes para as características de vigor inicial.

Longevidade como possível indicador de qualidade

O estudo mostrou que a longevidade das sementes é mais influenciada pela genética do que pelo ambiente. Para os pesquisadores, essa característica pode, no futuro, funcionar como um indicador para prever o desempenho geral das sementes sob estresse causado por pragas.

Segundo Chamma, essa característica está associada à qualidade fisiológica da semente e poderia, eventualmente, ser incorporada a programas de melhoramento genético.

O professor Amaral pondera que, atualmente, pouco se investe em melhoramento voltado especificamente à qualidade das sementes, já que a prioridade costuma recair sobre tolerância a doenças, estresse hídrico e outros fatores. Segundo ele, uma semente mais longeva preserva melhor seu vigor, o que está diretamente ligado à capacidade de germinar rapidamente, emergir e iniciar a fotossíntese — fatores que, segundo o professor, trazem ganhos ao agricultor.

Para Chamma, o cenário ideal envolve manejo integrado de pragas, combinando melhoramento genético, aplicação de inseticida e controle biológico, de forma que o inseticida químico seja utilizado apenas quando realmente necessário.

Redação

Agro101

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